//Após coronavírus, médica diz que estava ansiosa para voltar a atender em UTIs de SP: me sinto um pouco mais protegida

Após coronavírus, médica diz que estava ansiosa para voltar a atender em UTIs de SP: me sinto um pouco mais protegida

Diagnosticada com coronavírus em 18 de março, a médica emergencista Anna Poloni, de 33 anos, voltou ao trabalho nas UTIs de três hospitais de São Paulo na última sexta-feira (3), depois de ficar 16 dias afastada por causa da doença.

Durante o tempo de isolamento, a médica chegou a ser internada por dois dias e meio na UTI de um dos hospitais onde trabalhava, devido a complicações geradas pela Covid-19. Nesse período, foi tratada por colegas.

Passado o período recomendado de isolamento, ela voltou com energia renovada para os trabalhos de atendimento de emergência, atuando na linha de frente dos cuidados aos pacientes que estão com coronavírus na capital que acumula o maior número de mortos e infectados com a doença do País.

“Embora ainda não exista nenhuma pesquisa que possa afirmar completamente que não terei novamente a doença, me sinto um pouco mais protegida que os outros, quase um super herói como o Wolverine”, brinca ela. “Talvez seja uma defesa psicológica, de quem já passou por tudo isso e saiu viva. O fato é que estou mais firme e isso ajuda a dar força aos outros colegas”, afirma.

Segundo o infectologista Esper Kallás, da USP, disse ao Fantástico quem teve o coronavírus e se curou está imune. “A gente tem elementos suficientes para dizer que a infecção por um vírus depois de ela estar curada induz uma defesa, induz a formação de uma substância protetora chamada anticorpos que são capaz de neutralizar, bloquear o germe caso a pessoa entre em contato com a doença de novo”.

“Eu sou emergencista. Escolhi estar na linha de frente e não faço isso porque é o que sobrou ou para complementar renda. Não. Estudei muito e escolhi essa especialidade. Não faz sentido eu ter medo agora de voltar para o trabalho, principalmente neste momento. A sensação que tenho é que estudei a vida inteira para poder exatamente ajudar os pacientes num momento como esse”, completou Anna.

Mesmo tendo passado por período crítico nos primeiros dias de infecção, a médica diz que usou o tempo de isolamento para estudar o coronavírus e entender mais sobre a doença.

“Eu já estava ansiosa para voltar porque sei que é um momento crítico, que a ausência de qualquer profissional faz falta. Mesmo durante o período que fiquei afastada, estive estudando e lendo artigos sobre a doença, para poder entender o que se passava comigo e também como fazer meu trabalho da melhor forma possível”, conta a médica.

Pacientes jovens em perigo

A médica alertou para o número de casos de jovens que têm chegado nos hospitais com quadros delicados de saúde, em virtude do coronavírus. Ela afirma que, embora as pessoas mais novas estejam fora do grupo de risco, como os idosos e pessoas com comorbidades, os jovens estão entre os mais infectados em São Paulo e têm preocupado os médicos que atendem urgências e emergências nos hospitais.

“Essa doença é uma roleta russa. Não dá para prever quem é que vai ter um quadro complicado da doença ou não. Cada pessoa tem uma reação. Não sei se é porque os mais velhos têm se preservado mais e os jovens demoraram a se recolher, mas o fato é que o vírus está se comportando diferente em São Paulo e muitas pessoas jovens, sem histórico de problemas de saúde, têm dado entrada em situação bastante críticas nos hospitais”, afirma.

A médica afirma que, entre colegas da medicina que não estão acostumados a atuar com pacientes em emergência de vida, o clima é de absoluta apreensão e medo de contrair a doença ou levar o vírus para casa.

“O pessoal que não atua muito em pronto-socorro está muito amedrontado, porque nós estamos prevendo um cenário de superlotação em que a gente pode até passar pelo problema da Itália, onde o médico precisa fazer o que se chama de ‘Escolha de Sofia’, que é decidir quem é que tem mais chance de sobreviver para investir e optar. Esse é um cenário pavoroso. Ninguém gostaria de passar por isso. Nem eu. Mas a gente precisa trabalhar para que não cheguemos a esse ponto. Cobrar das autoridades para que não cheguemos a esse ponto”, declara.

Anna Poloni tem dez anos de atuação em atendimentos de urgências e emergências em São Paulo. Até o ano passado trabalhava em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) no bairro do Campo Limpo, extremo Sul de São Paulo. Lá, a médica atendeu pacientes que chegavam em estado grave, seja por acidentes, troca de tiros com a polícia, quedas, infartos, etc.

Essa dura experiência mostrou para a médica a dura realidade da falta de leitos e insumos para trabalhar. E o maior pesadelo, diz ela, é viver essa realidade de forma ampliada, em virtude de um pico incontrolável da doença na cidade, caso as pessoas não obedeçam as orientações do governo de se recolher em casa.

“Trabalhei cinco anos na UPA do Campo limpo, vi a realidade da superlotação e a falta de leitos. É uma coisa que a gente já vive desde sempre no SUS, uma realidade antes do coronavírus. Ter que escolher quem é o paciente mais grave, que tenha mais chance de sobreviver e encaminhar para um leito de UTI. Deixei de trabalhar lá pela angústia que sentia da falta de recursos. Isso me gerava um estresse muito grande, de não conseguir fazer mais pelo nosso paciente. O meu receio hoje é repedir isso com a pandemia. De que comece a faltar recursos e a gente não consiga ajudar as pessoas que chegam”, desabafa.

Anna Poloni diz que se prepara psicologicamente todos os dias para enfrentar um quadro de superlotação dos leitos por causa da pandemia de covid-19. O maior pesadelo, segundo ela mesmo, é ter que atender um amigo, parente ou colega de trabalho

“Tenho bastante medo do que pode acontecer. De chegarem amigos e colegas em estado crítico, ou outros médicos que estejam graves e a gente tenha que atender essas pessoas. Família da gente. Isso é uma coisa que me amedronta muito. É uma coisa que me assusta e tenho tentado trabalhar a cabeça quando isso eventualmente acontecer”, desabafa a médica.

Mesmo já estando curada da doença, Anna Poloni conta que passou maus bocados nos primeiros dias de infecção e ficou assustada com as reações da doença no organismo.

“Não foi fácil se recuperar do vírus. Nas primeiras 48 horas eu fiquei bem grave e cheguei a ser internada num dos hospitais onde trabalho. Cheguei com a frequência cardíaca muito baixa e a pressão muito alta, com uma resposta inflamatória muito ruim. Conforme fui melhorando, combinei com os médicos que estavam me acompanhando que era melhor eu terminar o tratamento em casa, também para não expor a equipe. Porque, quanto mais tempo que ficasse internada, mais tempo eu exporia eles à minha doença. Na volta para casa, cheguei a passar mal novamente no quinto dia, voltando ao hospital. Só me senti melhor depois do novo dia do ciclo da doença”, narra ela.

Desde o início da pandemia de coronavírus em São Paulo, a médica emergencista diz que optou pelo auto isolamento e sai de casa apenas para trabalhar e atividades absolutamente essenciais, como comprar comida ou medicamentos. São quase cinquenta dias sem ver os pais e outros 40 dias sem ver o namorado.

Mesmo depois de já ter superado a infecção, Anna Poloni redobrou os cuidados pessoais para não levar o vírus para casa. Ela conta que usa dois pares de roupa diferente no caminho de casa para o trabalho, além de criar uma zona suja dentro do apartamento.

“Saio de casa com uma roupa, chegando ao hospital, troco ela e coloco uma segunda. Assim que termina o plantão, troco essa roupa e visto outra. Quando chega em casa, tiro a roupa que usei no caminho ainda na porta, coloco no tanque, tomo banho direito e só depois vou utilizar as outras áreas de casa”, conta a moça.

Os cuidados, segundo ela, não são apenas pessoais, mas de proteção à família, amigos e colegas de trabalho.

“Tudo nessa doença é novo. Não é só porque me curei que não posso ser um agente de transmissão para outras pessoas. Eu tenho pais idosos, sogra idosa, amigos queridos. É minha responsabilidade me cuidar e cuidar de todos eles. Todos os brasileiros precisam pensar não só em si, mas nas outras pessoas que amam, levando o isolamento a sério”, declara Anna.

Anna Poloni trabalha há dez anos com emergências médicas, ajudando a estabilizar pacientes em estado grave. — Foto: Acervo PessoalAnna Poloni trabalha há dez anos com emergências médicas, ajudando a estabilizar pacientes em estado grave. — Foto: Acervo Pessoal

Anna Poloni trabalha há dez anos com emergências médicas, ajudando a estabilizar pacientes em estado grave. — Foto: Acervo Pessoal